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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Uma pessoa é assassinada a cada 10 minutos no Brasil

O total de pessoas assassinadas no Brasil cresceu 1,1% em 2013, na comparação com 2012, e chegou a 53.646 casos, ou uma morte a cada 10 minutos. Os dados estão no 8º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que está sendo divulgado na manhã desta terça-feira, 11, em São Paulo.

O estudo estima ainda que 143 mil pessoas tenham sido vítimas de estupro, a partir de projeções baseadas nas estimativas de subnotificações de casos. As polícias do País registraram 50.320 ocorrências de estupro em 2013.

Os dados mostram ainda que a maioria dos adolescentes que cumprem medidas socioeducativas (como internação na Fundação Casa) não cometeram crimes violentos. Dos 20.532 jovens cumprindo essas medidas, só 11,1% cometeram homicídios ou latrocínios.

Atualmente, segundo o anuário, 574 mil pessoas estão encarceradas no Brasil. É o equivalente a uma cidade como Santo André, na Região Metropolitana de São Paulo. O déficit é de 220.057 vagas.

Um em cada quatro presos do País está detido por crimes relacionados a tráfico de drogas, enquanto 49% deles cumprem pena por crimes contra o patrimônio. Já os autores de homicídio são 12% da população carcerária. 

Ainda segundo o anuário, 4% dos deputados federais eleitos para a próxima legislatura são policiais ou ex-policiais. Os dados mostram que 43% dos projetos da "bancada da bala" da atual legislatura foram dedicados a temas de interesse corporativo das instituições policiais. Entre 2011 e 2014, essa bancada aprovou 35 projetos. [Fonte: Yahoo]

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Custos com a violência no Brasil chegaram a R$ 258 bilhões em 2013

Os custos com a violência no Brasil chegaram a R$ 258 bilhões no ano passado – quase 6% do PIB, que é a soma de todas as riquezas que o país produz em um ano. Os números são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que lança nesta segunda-feira (10/11/2014) o anuário da violência.
O anuário mostra que, em 2013, 2.212 pessoas foram mortas pela polícia em todo o país. Foram seis mortes por dia em confrontos. A comparação com a polícia dos Estados Unidos mostra uma explosão no número de casos. Nos últimos cinco anos, as polícias brasileiras mataram 11.197 pessoas, enquanto a dos EUA levou 30 anos para atingir quase o mesmo número de mortes: 11.090.
Policiais também foram vítimas. Em 2013, 490 foram mortos no país – 75% estavam fora de serviço. 11% dos homicídios do mundo aconteceram no Brasil. A violência tem um custo alto para toda a sociedade.
“Dos 258 bilhões gastos com os custos da segurança pública e da violência no Brasil, só R$ 65 bilhões são gastos com políticas públicas de segurança e com o sistema prisional. Isso significa que a gente gasta três vezes mais com os efeitos perversos da violência e da segurança privada do que com políticas públicas voltadas ao enfrentamento do crime e da violência”, diz Samira Bueno, diretora do Fórum.
A secretária nacional de Segurança Pública, Regina Miki, diz que a violência só vai cair se houver integração dos poderes. “A solução está em aproximarmos o judiciário da política de segurança pública e termos o respaldo da ressocialização dentro do sistema prisional”, afirma.
No anuário também existe um levantamento feito em oito estados feito pela Fundação Getulio Vargas. Ele mostrou que 57% dos entrevistados acreditam ser possível desobedecer as leis. Pior: 81% dizem que é sempre possível “dar um jeitinho” para não cumprir as leis.
A análise dos especialistas é de que esses dados são fortes sinais de que a população convive com a sensação de impunidade. E quanto maior a renda, maior a sensação de impunidade: é em Brasília que está a maior parte das pessoas que acham que é possível “dar um jeitinho". [Fonte: G1]

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O Sentido da Ética Está no Rosto...




O ROSTO

Por: Jorge Schemes*



O rosto, como manifestação do humano é paradoxal, pois é ao mesmo tempo objetividade e subjetividade, tristeza e alegria, angústia e paz, “totalidade e infinito” (para mencionar uma das expressões de Emmanuel Lévinas). O rosto é manifestação e mistério; é concretude e idealismo, mas é no rosto e por ele que percebemos e somos percebidos enquanto seres humanos; o rosto nos aproxima e nos remete a uma necessidade ética universal. É pelo rosto que o outro nos impõe a necessidade de uma “alterconsciência” que de maneira nenhuma subjuga ou anula a autoconsciência. Essa “alterconsciência” (Consciência do outro) impõe a ética da alteridade como filosofia primeira, o que pressupõe uma relação ou inter-relação norteada pelo princípio do diálogo e da reverência. A ética da alteridade condena a segregação, a exclusão, os pré-conceitos e pré-juízos, e contempla o acolhimento do outro, a solidariedade, a diversidade e a justiça, não apenas como um discurso retórico, mas como atitude moral de comprometimento com o diferente, incluindo nesta classificação a nós mesmos, e conseqüentemente com o totalmente outro.
O rosto é a manifestação universal do humano no ser, do totalmente outro, fragmentado pelo mundo pós-moderno da técnica. O rosto é o clamor que se expressa sem palavras e que exige uma resposta ética, pois é no rosto e por ele que a totalidade do alter (outro) se comunica com o ego (eu), e é no rosto e por ele que o infinito (o transcendente) se torna um mistério e ao mesmo tempo se deixa antever. O rosto do outro assim como o meu rosto para o outro são ao mesmo tempo independentes e interdependentes, no sentido ético e moral isso significa autonomia e heteronomia. A ética da alteridade tem seu pressuposto fundamentado na heteronomia sem a exclusão da autonomia. Assim, o que importa é a relação ética que fundamenta as ações e o comportamento diante do rosto de outrem e dele para o nosso.
O rosto é clamor e exigência ética, ignorá-lo é viver no vazio do egoísmo individualista da autoconsciência. Antes de uma ontologia, faz-se necessário e imperativo uma alterconsciência ética. Ignorar o rosto e sua manifestação caleidoscópica e concreta diante de nós, equivale a ignorar o transcendente. O rosto é o convite ético do infinito na forma finita. Esse convite exige uma resposta do ego (eu), e essa resposta só pode ser possível por meio da ética da alteridade como filosofia primeira. O rosto nos impõe responsabilidade moral, o rosto nos conclama à justiça social, o rosto do outro estabelece os limites éticos e morais de minhas ações. Olhar no rosto do outro estabelece o primeiro passo para o compromisso e para o comprometimento ético, pois não podemos viver apenas para o ego solitário (egocentrismo) sem considerar que o rosto do outro nos convoca à justiça social e à solidariedade. O outro e nós mesmos nos revelamos no rosto na categoria de humanos, na condição de igualdade, mas ao mesmo tempo nos ocultamos nele, pois como já refletimos o rosto é totalidade humana (finitude) e totalidade divina (infinito e transcendência). O rosto é a expressão do humano que se impõe ao anti-humanismo pós-moderno, o qual vem até nós embrulhado na forma do consumismo. O rosto do outro, do excluído, é grito e súplica, e é ao mesmo tempo manifestação ética e exigência ética. O rosto do outro nos convoca à alteridade na qualidade de filosofia primeira. E como filosofia primeira, a alteridade se manifesta na ética em sua mais pura essência e forma.


*Jorge SchemesBacharel em Teologia Línguas Bíblicas (Grego e Hebraico).
Licenciado em Pedagogia: Administração Escolar e Séries Iniciais.
Licenciado em Ciências da Religião: Habilitação em Ensino Religioso.
Pós-Graduado em Interdisciplinaridade na Educação com Metodologia do Ensino Superior.
Pós-Graduado em Psicopedagogia Clínica e Institucional.
Técnico Pedagógico na GEECT – Gerência da Educação, Ciência e Tecnologia.
Professor de Filosofia da Educação na ACE – Joinville, SC.
Escritor e Palestrante

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

'A violência parece estar fora de controle no Brasil', diz pesquisador



Nos últimos três anos e meio em que vive no Brasil, trabalhando como diretor de pesquisa do Instituto Igarapé, um dos principais centros de estudos do mundo sobre segurança pública, o canadense Robert Muggah passou a conhecer de perto o problema da violência no país.

Antes disso, Muggah já havia acumulado um grande conhecimento sobre segurança pública, ao estudar o assunto em seu doutorado em Oxford e ao trabalhar em projetos de combate à violência em mais de 50 países.

É com base nesta experiência acumulada que ele trouxe boas e más notícias ao TED Global, conferência de projetos e ideias inovadoras atualmente em curso no Rio de Janeiro.

A má notícia é que ele vê um aumento da violência no Brasil e que o país está no caminho inverso ao de várias partes do mundo onde as taxas de criminalidade vêm caindo.

A boa notícia é que, com a internet, a imensa quantidade de dados hoje disponíveis e as tecnologias digitais, todo brasileiro pode contribuir com o combate à violência.

A seguir, ele explica como.

BBC Brasil - O que o cidadão comum podem fazer para combater a violência?

Robert Muggah - Estamos num momento da história em que, em um ano, são gerados mais dados do que todos os dados disponíveis nos dois mil anos anteriores. Isso está gerando oportunidades enormes para cidadãos usarem informações de novas formas.
Uma delas é usar este grande volume de dados para entender tendências, como, por exemplo, a distribuição da violência. Um exemplo é a ferramenta que criamos que mostra as importações e exportações de armas e munição no mundo desde 1992.
Estes dados estão disponíveis publicamente na ONU, mas ninguém havia pego e feito algo com isso. Três meses depois do lançamento, tivemos 5 milhões de visitas, o que mostra que há um grande interesse por isso, não só entre ativistas e governos, mas em outros setores da sociedade.
A segunda forma é por meio de novas ferramentas colaborativas para buscar soluções para a violência coletivamente. No México, por exemplo, houve um apagão na mídia sobre este assunto, porque, ao falar da violência, os jornalistas e blogueiros se tornam alvos dos cartéis.
Muitas organizações se uniram para substituir a mídia e informar onde é seguro de se estar ou não. Quando há um tiroteio, a mídia pode não falar disso, mas há posts no Facebook e no Twitter sobre o assunto.
Isso pode ser reunido e divulgado por estes novos centros de informação. O mesmo ocorreu no Quênia, onde os cidadãos passaram a monitorar a violência por conta própria. Isso permite criar informação em tempo real, de forma interativa e com a ajuda não de poucas pessoas, mas de toda a população. Isso não era possível há dez anos.
Em terceiro lugar, é possível criar programas para celular para ajudar as pessoas a se protegerem. Há exemplos de sistemas de alarme, em que você pode usar o telefone para chamar a polícia sem que isso seja notado, enviar uma mensagem com um pedido de socorro, disparar uma sirene. Há um grupo no Egito que monitora a violência sexual. E estas ferramentas alimentam os sistemas dos quais já falamos.

BBC - Especialmente depois dos protestos, a violência policial passou a ser mais debatida. Como podemos nos proteger deste tipo de violência?

Muggah - Essa é uma questão importante ao redor do mundo. Hoje, as pessoas são menos tolerantes com a violência policial. Mais casos vêm mais à tona, e as pessoas debatem mais sobre isso. O Brasil tem uma das polícias mais violentas do mundo. A ONU repete isso sempre.
Uma coisa que se pode fazer é usar a tecnologia e os dados. No ano passado, analisamos os posts em redes sociais para ver se há uma relação entre os Black Blocks e outros grupos afiliados e a brutalidade policial, porque a imprensa dizia que os Black Blocks estavam forçando a polícia a ser violenta.
Rastreamos milhões de posts para entender a reação gerada sempre que havia um incidente de violência policial. Mostramos que, quando a polícia usava mais força, a influência dos Black Blocks crescia. Então, fomos à Polícia Militar para mostrar isso.
Eles se impressionaram, porque não tinham a capacidade de fazer esta análise por conta própria. Mostramos que talvez fosse necessário abrir canais de negociação, porque a força não era uma alternativa. Então, a sociedade pode fazer o mesmo e levar estas informações para a internet para criar um debate. Os dados gerados hoje permitem fazer isso.

BBC - Houve uma resposta prática da polícia quanto aos Black Blocks?

Muggah - Foram criados times especiais para negociar com os manifestantes. Os cidadãos podem fazer o mesmo. Hoje, existem ferramentas para que cidadãos denunciem o abuso policial.
Nos Estados Unidos, o uso de câmeras no corpo dos policiais é obrigatório em 20 Estados. Mas é preciso ter muito cuidado com isso, porque não queremos que estas ferramentas sejam mal usadas.
Então, estamos fazendo um teste com muito cuidado nas UPPs para ver se funciona. Mas sabemos, por exemplo, que fazer com que policiais usem câmeras gerou na Califórnia uma redução de 75% nas queixas contra violência policial e uma queda de 65% nas denúncias contra este tipo de conduta.
Claro que a Califórnia não é o Brasil, mas existe por lá um problema sério de abuso de força por policiais contra minorias. O importante é que estamos reunindo dados e fazendo pesquisas para ver se isso funciona, porque se trata de uma nova fronteira. 

BBC - Imagino que o senhor esteja acompanhando as eleições no Brasil. O que o senhor acha da forma como a segurança pública vem sendo debatida?

Muggah - A segurança pública esteve praticamente fora dos debates. Isso é uma vergonha, porque houve uma grande mudança nos últimos anos, e o público está mais atento à esta questão. Também porque há algo errado no Brasil nesta questão.
Houve avanços em São Paulo, Rio e Pernambuco. Mas, de forma geral, as taxas de assassinatos e outros tipos de crime continuam a aumentar. O Sul está um pouco mais seguro, mas o Norte está mais inseguro.
É uma loucura que 13 das 50 cidades mais inseguras do mundo estejam no Brasil. Parece que a violência está fora do controle. Então, seria de se esperar que o assunto receberia mais atenção. Mas sabemos que, em qualquer eleição presidencial, o debate sobre segurança pública é algo muito perigoso para os candidatos. Não vale a pena debater ou fazer muitas promessas sobre esta questão.

BBC - Quais deveriam ser as prioridades de segurança pública do próximo presidente do país?

Muggah - Em primeiro lugar, criar um sistema de informação mais eficiente sobre homicídios, violência policial, a população prisional. Hoje, temos é uma colcha de retalhos, em que alguns Estados têm dados enquanto outros não.
É impossível ter uma política séria sem dados de qualidade. É como com o câncer. Como você pode tratar uma doença sem diagnosticá-la? Nos dois casos, a informação de qualidade é algo crítico. Também é necessária uma estratégia nacional para homicídios no país.
Ter 56 mil mortes por ano é inaceitável. E está aumentando, enquanto está caindo na maior parte do mundo. Em terceiro lugar, precisamos repensar a política de drogas. Não que eu defenda a legalização ou sequer a regulamentação. Defendo uma abordagem mais humana, em que tratamos viciados como pacientes em vez de jogá-los na prisão.
O sistema criminal no Brasil hoje favorece quem é branco e tem dinheiro, enquanto que os mais pobres ou negros são jogados na prisão e têm suas vidas arruinadas. Precisamos ter um debate nacional sobre este assunto, porque o problema com as drogas é inevitável. Não podemos apenas tentar controlar isso nas fronteiras.
Em quarto lugar, é preciso reformar a Polícia. Não sei como isso deve ser feito, mas todos, até mesmo a polícia, concordam que a estrutura atual não funciona. Não há como você ter uma polícia investigativa tão distante da polícia ostensiva. É uma contradição que leva à impunidade, porque os casos são mal investigados.
Por fim, é preciso uma estratégia de segurança pública, com uma instituição pública federal dedicada a este assunto. Não é necessariamente o caso de criar um novo ministério, como está sendo feito em outras partes da América Latina. Mas talvez seja hora do Brasil centralizar a responsabilidade sobre isto, para gerenciar a prevenção de violência, a política de drogas. Para haver coerência no que é feito.[Fonte: BBC]

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O desencanto com o Brasil

Um estudo inédito revela o que os brasileiros pensam do País: um lugar desonesto, violento e ruim para se viver

Amauri Segalla (asegalla@istoe.com.br) e Paula Rocha


Se o Brasil fosse uma pessoa, como ela seria? Alegre? Confiável? Distinta? Para uma parcela considerável da população, nenhum desses atributos traduz a verdadeira alma brasileira. Se o Brasil fosse alguém de carne e osso, a principal característica, aquela que se vê logo de cara, seria a desonestidade. Um estudo inédito realizado pela consultoria BrandAnalytics, empresa ligada à Millward Brown Optimor, um dos maiores grupos de pesquisa do mundo, revela o que os brasileiros pensam do País. Obtidos com exclusividade por ISTOÉ, os resultados são espantosos. Os entrevistados receberam uma lista com 24 palavras e tiveram que apontar quatro delas que definissem com exatidão a nação onde vivem. Metade das pessoas declarou que a palavra “desonesto” descreve a personalidade nacional. E mais: apenas 18% das pessoas afirmaram que o Brasil é o lugar ideal para viver, praticamente o mesmo percentual (17%) que apontou o Japão como o país preferido. Trata-se do índice mais baixo entre quatro nações pesquisadas. Segundo o estudo, 52% dos americanos, 30% dos ingleses – pessimistas por natureza, lembre-se – e 26% dos chineses escolheram seu próprio país como o lugar perfeito para viver. Não é preciso muito esforço para entender o que a pesquisa evidencia. Os brasileiros estão, afinal, desencantados. “O levantamento mostra um índice de insatisfação surpreendente”, diz Isa Telles, associada da BrandAnalytics e coordenadora do estudo. A mesma descrença é confirmada pela pesquisa ISTOÉ/Sensus, tema da reportagem de capa desta edição. Neste caso, 50,2% dos brasileiros não consideram que o País está no rumo certo.


O que explica tanta desilusão? Basta dar uma espiada no noticiário para conhecer a incivilidade que permeia a vida de cada um de nós. Em São Paulo, alguém esquarteja o corpo de um motorista de ônibus e espalha partes dele pela cidade. No Rio, amarram um negro num poste e o espancam. Em Brasília, presos graúdos passam o tempo vendo jogos de futebol em tevês de plasma, enquanto no resto do País os cárceres são depósitos humanos degradantes. Em Belo Horizonte, hospitais públicos recusam atendimento a uma criança à beira da morte. No Nordeste, faltam professores. Em quase todo o Brasil há escassez de água, e os governos, sejam eles de qualquer cor partidária, atribuem a culpa sempre aos outros, sem jamais assumir responsabilidades. Por onde se anda as pessoas reclamam do preço de tudo o que se consome, do tomate na feira, do iPhone na loja da Apple, da passagem de ônibus, do carro esportivo. A economia não anda. As obras da Copa não saíram como o prometido. Os políticos querem o poder apenas pelo poder. O trânsito é horrível. A violência bate à nossa porta. Como ser feliz em um lugar assim? “Os resultados da pesquisa demonstram que grande parte da população não confia nem no País nem no seu semelhante”, diz Dulce Critelli, professora de filosofia da PUC de São Paulo. “É a representação concreta da ideia de que é preciso se defender não só dos outros, mas também de seus governantes.”


Talvez isso explique por que cada vez mais brasileiros achem que a melhor saída é o aeroporto internacional. Moradores do Rio de Janeiro, o publicitário Pedro Henrique Ramos, 31 anos, e a produtora cultural Liana Saldanha, também 31, estão aprontando as malas para mudar para Portugal, em julho. Na terra dos antepassados, acreditam, terão melhores condições para criar os futuros filhos. “Comparo a vida de meus amigos que moram em Portugal com a dos que vivem no Brasil e vejo que lá fora há mais perspectivas”, diz o publicitário. “Aqui não temos serviços públicos decentes nem escola e hospitais.” O que impressiona é que, profissionais de certo sucesso no Brasil, eles vão largar tudo para se aventurar mundo afora. Mesmo diante das incertezas de lá, acham que vale a pena fugir das certezas desagradáveis daqui.


Se você nunca foi enganado, pergunte a um parente ou amigo se já sofreu algum golpe e a resposta provavelmente será sim. As mazelas nacionais estão aí, em qualquer área ou atividade, tão visíveis quanto um assalto à luz do dia. A secretária Daiane Alves de Lima, 20 anos, foi convencida a pagar R$ 80 – sim, apenas isso – por mês para comprar a casa própria. Era uma mentira, um golpe deslavado. “Não desconfiei de nada”, diz. “Só quando compareci a uma reunião do projeto é que passei a questionar a validade dele.” Daiane perdeu dinheiro e pediu a ajuda do Instituto Nacional de Defesa do Consumidor do Sistema Financeiro para checar se deveria continuar no projeto. Na saúde, os golpes se sucedem. A securitária Luciane de Paula e Silva, 41 anos, decidiu fazer, em abril de 2013, uma cirurgia para colocação de um balão intragástrico em uma clínica particular. Pagou R$ 12.712 pelo serviço. Um dia antes da operação, foi informada que ela havia sido cancelada. “Naquele momento, decidi desistir da cirurgia, pois perdi a confiança na clínica”, diz ela. O que Luciane não sabia é que ali começaria uma batalha que se arrasta até hoje. “Fiz um acordo com a clínica em que eles me devolveriam parte do dinheiro da cirurgia”, conta. “Para o meu espanto, os cheques da clínica voltaram, pois não tinham fundos.”


A pesquisa da BrandAnalytics confirma o que outros estudos já sugeriram: o descrédito profundo nas instituições, quaisquer que sejam elas. Segundo o levantamento, 81% dos entrevistados disseram que, para realizar seus sonhos, dependem essencialmente de esforços individuais. Só 13% responderam que precisam do suporte do governo. João Bico de Souza, 47 anos, é dono da Tecnolamp, uma empresa de iluminação com 40 funcionários diretos e 400 colaboradores temporários. “Abrir a empresa foi uma dificuldade”, diz. “Foram pelo menos dois meses de protocolos e burocracias.” João é o que se pode chamar de empreendedor nato. Filho de operário e de dona de casa, começou a trabalhar aos 15 anos, como balconista. Aos 22, já era empresário. O que o Brasil ofereceu para que seguisse em frente? Pouca coisa. “Falta apoio ou retorno do governo”, afirma. Tudo o que conseguiu, assegura ele, foi graças ao seu brutal esforço.


No clássico “Raízes do Brasil”, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, ao falar do homem cordial como uma marca indestrutível do caráter brasileiro (cordial não quer dizer para ele bondoso, mas retrata principalmente os que agem movidos pela emoção e não pela razão), desdobra-se também sobre o que chama de “personalismo” do cidadão brasileiro. No Brasil, diz Holanda, as pessoas cultuam o mérito pessoal (é o popular “cada um por si”), em vez do trabalho coletivo. O individualismo exacerbado se reflete, na análise do historiador, em organizações sociais e governos frágeis. “A nossa pesquisa revela que o brasileiro não tem uma visão de País”, diz Isa Telles, da BrandAnalytics. Seria isso resultado da conjuntura ou de um processo histórico? Provavelmente, as duas coisas. Se o individualismo contribuiu para a formação do que se pode chamar de psique brasileira, nos dias atuais ganhou alento graças ao desgosto com os rumos do País.


O grau de insatisfação dos brasileiros começou a ser escancarado em julho do ano passado, quando milhares de pessoas foram às ruas gritar contra as coisas erradas do País. Mas é um equívoco dizer que tudo ficou ruim de repente. De certo modo, o desencanto tem a ver com o próprio despertar dos brasileiros. É inegável que o Brasil avançou em muitas áreas nos últimos anos. A miséria diminuiu, a classe C teve acesso a bens como jamais tivera, a renda dos trabalhadores aumentou. Mas será apenas isso que buscamos? Com o avanço da economia, os brasileiros passaram a conhecer outras realidades. Viajaram, foram morar fora e com a internet tiveram maior acesso à informação. Descobriram, enfim, que há muitos mundos por aí – e realidades mais amigáveis que a nossa. O economista alemão Albert Hirschman desenvolveu uma teoria psicológica que explica a baixa tolerância das pessoas com o seu próprio destino quando se deparam com outro melhor. Ele chamou isso de “efeito túnel.” Se você está num congestionamento e a pista ao lado começa a andar, logo se enche de esperança e imagina que seu carro vai se movimentar também. Se a expectativa é frustrada, você fica furioso: “Por que eu não estou na outra pista?”




Falar mal do Brasil é um dos esportes preferidos da nação. Sempre foi assim. Sobre o País, o jurista, político e escritor Ruy Barbosa disse o seguinte lá no século XIX: “De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar diante da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.” O que Barbosa disse não é muito diferente do sentimento de desencanto revelado pelos brasileiros na pesquisa da BrandAnalytics. “Se para a corrupção não há punição, a sociedade acaba se acostumando com as transgressões diárias das leis”, diz o economista Gil Castello Brasil, da Ong Contas Abertas. “Mudar essa cultura depende de um longo processo de educação. Nesse sentido, mostrar-se insatisfeito e indignado é bastante positivo.” O cientista político Fernando Weltman, da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro, acha que o resultado do estudo expõe a baixa autoestima do brasileiro, consagrada por Nelson Rodrigues na expressão “complexo de vira-latas.” “As características apontadas na pesquisa reforçam o estereótipo de que os brasileiros são simpáticos e charmosos, mas podem te passar a perna”, diz Weltman.


Isso realmente corresponde à realidade? Olhe para o lado e pense bem: a maioria das pessoas de seu convívio é desonesta? Elas querem levar vantagem sobre você? Não teria sido a impressão generalizada de desonestidade apontada na pesquisa um reflexo da má imagem que temos de nossos governantes? Não seria resultado dos índices chocantes de violência? Segundo a BrandAnalytics, hoje a maior preocupação dos brasileiros diz respeito justamente à segurança – segundo a ONU, 11 das 30 cidades mais violentas do mundo são brasileiras. É desnecessário dizer que, por mais que o Brasil tenha alimentado uma lamentável escola do crime nos últimos anos, as pessoas de bem, claro, representam larga maioria. O interessante da pesquisa é que os brasileiros julgam o Brasil um país desonesto, mas avaliam a si mesmos de maneira positiva. “É natural atribuir a si qualidades, mas achar que os outros não as têm”, diz Weltman, da FGV. Se metade dos entrevistados acredita que a principal característica do País é a desonestidade, 58% se dizem dignos de confiança. Ou seja, o meu vizinho é mau, mas eu sou bacana. No fundo, o que a pesquisa revela é que o Brasil tem um milhão de problemas para resolver e é só com a indignação – e o desencanto – que dá para sonhar com um país verdadeiramente melhor. [Fonte: IstoÉ]

Foto: Felipe Varanda, Pedro Dias, João Castellano/Ag. Istoé, Pablo Jacob / Agência O Globo; MARCOS BIZZOTTO; Rogério Cassimiro/Folha Imagem.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O dinamarquês que entendeu o Brasil - e por que ele fugiu correndo

Mikel Keldorf Jensen (Foto: Reprodução/ Facebook)
Você já deve ter visto por aí a história do jornalista dinamarquês Mikel Keldorf Jensen. Fissurado em cobrir a Copa (“o melhor esporte do mundo em um país maravilhoso”), ele fez a lição de casa direitinho. Veio antecipadamente para estudar a língua, há dois anos e meio, e voltou para cá em setembro do ano passado.

Durante cinco meses observou as consequências da preparação: os despejos e remoções de comunidades, a ação da PM e do exército, as acusações de corrupção, e a incrível inversão social de um país que piora – para provar que está melhor. No mês passado, em Fortaleza, o choque de realidade pesou. Jensen descobriu que crianças de rua poderiam estar sendo mortas por dormirem em locais de frequência turística. Várias delas teriam desaparecido.

Esta semana, Jensen publicou um relato-desabafo no Facebook, e combinou que um artigo na Tribuna do Ceará só seria publicado depois que ele estivesse fora do país. A primeira coisa que chama a atenção, evidentemente, é a acusação do extermínio de crianças. Em entrevista já na Dinamarca, ele cita como fonte pessoas que fazem trabalho social com elas, e que acusam esquadrões da morte de estarem atuando em Fortaleza. Jensen acha que o Brasil ainda sofre com a herança repressiva da ditadura militar.

Mas o que mais me interessou é o trecho que copio a seguir:

“Durante cinco meses fiquei documentando as consequências da Copa. Existem várias: remoções, forças armadas e PMs nas comunidades, corrupção, projetos sociais fechando. Eu descobri que todos os projetos e mudanças são por causa de pessoas como eu – um gringo – e também uma parte da imprensa internacional. Eu sou um cara usado para impressionar.

Em março, eu estive em Fortaleza para conhecer a cidade mais violenta a receber um jogo de Copa do Mundo até hoje. Falei com algumas pessoas que me colocaram em contato com crianças da rua, e fiquei sabendo que algumas estão desaparecidas. Muitas vezes, são mortas quando estão dormindo à noite em área com muitos turistas. Por quê? Para deixar a cidade limpa para os gringos e a imprensa internacional? Por causa de mim?”
Jensen tropeçou sem querer na quimera brasileira: o Brasil consiste não em um, mas em dois projetos paralelos de sociedade. E um deles quer criminalizar e exterminar o outro, se não puder usá-lo como escravo. Na falta de outro nome, chamo esse embate de Projeto Pardo vs. Projeto Branco. Fica difícil para um europeu entender porque a parte privilegiada da sociedade não entende essa mesma sociedade como um todo, do qual todos deveriam se beneficiar em alguma medida (mesmo que preservando as regalias do topo).

Antes que algum marxista me lembre que o nome disso é luta de classes, eu diria que esse embate, além de político e social, tem uma dimensão cultural importante. Sem ir muito mais longe, expressões como o funk ostentação, que arrepiam qualquer marxista com seu viés consumista, são a cara do Projeto Pardo: uma disputa pelo protagonismo simbólico da sociedade, em que inclusive certos valores capitalistas são hackeados e tribalizados.

O que não é novidade para qualquer pessoa com alguma informação sobre o hip hop americano que, mesmo com seu forte impacto político na sociedade, sempre elegeu grifes como totens, e usou noções de consumo como manobra de reposicionamento social. Um tipo de estratégia protestante que até aqui nossa intelectualidade de formação marxista e cristã, vitimista e avessa ao bem-estar, tinha enorme dificuldade em compreender (e agora teve que engolir à força, com o rolezinho).

Mas voltemos a Jensen, que diz, atônito: “A vida dele (o menino Allison, de 13 anos, que lhe ofereceu seu único bem, seus amendoins – a ele, um gringo com um mastercard no bolso e 10 mil reais de equipamento de filmagem) está em perigo por causa de pessoas como eu”.

Não se culpe. Não é exatamente por você, meu caro Jensen. Você é apenas o espelho branco e europeu da parte vertical da nossa sociedade. Ela quer provar, mais para si mesma, provavelmente, do que para você ou para toda a imprensa gringa, que este pode ser um país “eficiente” e “ordeiro”. E que toda a nossa sabedoria macunaímica, que repousa nas comunidades a serem despejadas e removidas, bem, essa que se estrepe.

É por isso que, mesmo que tenha Copa, e mesmo que o Brasil vença, o Brasil já perdeu. Porque a Copa realizada aqui (com uma ajudazinha gangsterística da Fifa) é apenas o Projeto Branco contrahackeando o que já foi uma simbologia central da nossa ginga e habilidade. Mas faz tempo que o futebol não significa mais nada, a não ser ilusão, e agora assassinato. [Fonte: Texto Copiado do Yahoo]

quinta-feira, 13 de março de 2014

Jérôme Valcke, Secretário-Geral da FIFA, teme Copa no Brasil como a pior já realizada


Parece que a Fifa a cada dia que passa se mostra mais controversa à realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Após diversas reclamações sobre o atraso nas obras, a onda de manifestações que atingiram o país e o medo de que algo dê errado na organização do evento, foi a vez do secretário-geral da entidade, Jérôme Valcke, afirmar que a Federação teme que a competição que seja a pior já realizada.
 Em entrevista ao jornal britânico The Times, Valcke mostrou preocupação com a instalação dos sistemas de telecomunicações e de tecnologia da informação nos estádios que serão palcos do evento. Segundo a publicação, o secretário-geral teme que os sistemas que permitirão que o público e a imprensa se mantenham conectado ainda nem tiveram o processo de instalação iniciado.


"Nós estamos trabalhando em condições em que o cimento (das novas arenas) ainda não está nem seco. Nós ainda temos que instalar todo o sistema de TI para a imprensa", declarou. "Sem os sistemas de TI e de telecomunicações instalados nos estádios, vocês (jornalistas) vão dizer que que nós somos os piores organizadores, e que esta (Copa) foi o pior evento".  Ele continua: "Acontece que, para instalar um sistema de TI em um estádio, são necessários pelo menos 90 dias, então temos que trabalhar por todos que têm interesse (no sucesso da Copa)", disse ele.

Ainda no jornal britânico, outras críticas foram feitas pela publicação. De acordo com a reportagem 'não é apenas a construção de estádios que está muito atrasada no Brasil: obras essenciais em aeroportos também estão atrasadas, e linhas de trens urbanos também não ficarão prontas a tempo do torneio', revelou a matéria.[Fonte: Yahoo]

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